No inverno é comum ver notícias sobre a baixa umidade relativa do ar, danos à saúde e até mesmo municípios entrando em estado de atenção, alerta ou emergência.
A importância de se conhecer a umidade relativa aumentou para o público em geral nos últimos anos, por conta de um decreto de lei do governo do Estado de São Paulo que proibiu a queima da palha da cana-de-açúcar – um processo pelo qual era possível iniciar as atividades de colheita nos canaviais e que, eventualmente, provocava queimadas descontroladas.
A lei de 2002 afirma que “sempre que o teor de umidade relativa do ar foi inferior aos 20%, a queima da palha da cana-de-açúcar será suspensa em qualquer momento do dia”. Na época, quando boa parte da cana-de-açúcar ainda era colhida sem mecanização, as proibições chamavam bastante a atenção.
Hoje em dia, com quase toda a colheita mecanizada e uma proibição total da queima da palha da cana a partir de 2017, este assunto já não é tão divulgado. Atualmente, a umidade relativa do ar é mencionada quando alcança valores abaixo dos 30% e a notícia geralmente é relacionada à saúde e ao bem-estar.
Associado erroneamente à OMS (Organização Mundial de Saúde), um estudo feito pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) em 1991, a pedido da prefeitura do mesmo município, divulgou uma escala empírica de umidade como padrão de recomendação dos cuidados a serem tomados com a saúde e das ações da Defesa Civil.
Mas afinal, o que é umidade relativa do ar?
Basicamente, a umidade relativa do ar é uma medida que mostra a relação entre quanto vapor d’água existe no ar e quanto caberia caso ele estivesse totalmente cheio de vapor em uma mesma temperatura.
A história da temperatura confunde um pouco. A quantidade de vapor d’água que cabe em uma parcela de ar varia conforme a temperatura da parcela. Em temperaturas mais baixas, cabe menos vapor em um mesmo ambiente, mas em temperaturas mais elevadas, a parcela de ar consegue suportar mais vapor.
Uma analogia que faço é com uma esponja. A fibra da esponja corresponde aos vários gases que compõe a atmosfera, como nitrogênio, oxigênio e gases nobres. Os poros correspondem ao espaço que pode ser ocupado pela água ou vapor, no caso da atmosfera. Confira na figura abaixo:
Em um dia comum, com temperatura mais baixa pela manhã e mais elevada à tarde, a esponja muda de tamanho conforme a mudança do valor do termômetro. Pela manhã, a esponja é pequena e a quantidade de água que cabe dentro dela é baixa. Imaginemos que a quantidade de água que está na esponja praticamente ocupe todos os poros. Neste caso, a umidade relativa do ar chega perto dos 100%:
Com o passar do dia, no entanto, a esponja aumenta de tamanho e chega ao máximo no início da tarde. Neste período, apesar da quantidade de água permanecer a mesma, o espaço que ela ocupa dentro da esponja é pequeno. A umidade relativa do ar, então, fica baixa:
Com o entardecer e com a diminuição da temperatura, a esponja volta a diminuir, aumentando a umidade relativa. Isto quer dizer que, mesmo em um dia considerado seco com umidade relativa do ar baixa, a madrugada normalmente registra um valor bem mais elevado por conta da diferença entre a temperatura nestes dois períodos.
Baixa umidade relativa do ar pode causar problemas na saúde humana
Voltando ao estudo da UNICAMP e da Defesa Civil de Campinas, os problemas decorrentes da baixa umidade relativa do ar concentram-se na saúde das pessoas e também no aumento do risco de incêndios em áreas vegetadas.
No caso da saúde humana, a baixa umidade relativa piora crises alérgicas e respiratórias, causa sangramento pelo nariz, aumenta o ressecamento da pele, traz irritação aos olhos e induz eletricidade estática. Neste último caso, a eletricidade estática não acontece somente nas pessoas, mas também em veículos e equipamentos eletrônicos.
A Defesa Civil adota critérios estabelecidos pela Organização Internacional de Proteção Civil, que classifica os índices de umidade relativa de acordo com a influência no organismo humano quando o valor fica abaixo de 30% são considerados atenção, abaixo de 20% como alerta e índices abaixo de 12%, são caracterizados como emergência. São tão falados, mas sem o devido crédito ao órgão correto.
Existe um nível de conforto de umidade?
Não existe um valor fixo. O valor de umidade relativa do ar considerado ótimo varia dos 40% aos 60%. E por que esta variação? Porque alguns agentes que pioram a qualidade do ar trazem mais problemas para índices superiores aos 60% ou abaixo dos 40%. As bactérias, por exemplo, desenvolvem-se mais rapidamente em ambientes com umidade superior aos 60% ou abaixo dos 30%. Para fungos e ácaros, o desenvolvimento acelera com umidade relativa superior aos 60%. Já a produção de ozônio – gás que nos protege quando está na estratosfera, mas se torna poluente quando se forma perto do solo, é mais rápida para índices de umidade relativa do ar mais baixa.
Agora, quando os índices de umidade relativa do ar ficam por muito tempo próximos a 100% num local muito quente, como nas florestas equatoriais, ocorre certa dificuldade na troca de calor do corpo humano com o meio ambiente. Assim, como o corpo não consegue se resfriar através do suor, a sensação é mais desconfortável.
Celso Oliveira é meteorologista e mestre em agronomia pela Universidade de São Paulo (USP), e desde 2001 é colaborador da Somar Meteorologia.
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